quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Novos dados globais evidenciam prevalência grave da violência contra as crianças, declara a UNICEF


NOVA IORQUE/LISBOA, 4 de Setembro de 2014 – A maior compilação de dados feita até hoje sobre a violência contra as crianças mostra a escala impressionante dos abusos físicos, sexuais e emocionais – e revela as atitudes que perpetuam e justificam a violência, mantendo-a ‘escondida à vista de todos’ em todos os países e comunidades do mundo.
“Estes são factos inquietantes – que nenhum governo, pai ou mãe gostaria de ver,” disse o Director Executivo da UNICEF, Anthony Lake. “Mas, se não enfrentarmos a realidade que cada uma destas estatísticas revoltantes representa – a vida de uma criança cujo direito a uma infância segura e protegida foi violado – nunca mudaremos a mentalidade segundo a qual a violência contra as crianças é normal e tolerável. Ela não é nem uma coisa nem outra.”
O relatório da UNICEF “Hidden in Plain Sight” (Escondido à vista de todos) baseia-se em dados de 190 países, que documentam a violência em locais onde as crianças deveriam estar seguras: nas suas comunidades, escolas e casas. O estudo apresenta detalhes sobre os efeitos duradouros, e muitas vezes inter-geracionais, da violência, e mostra que as crianças que a ela são expostas têm maior probabilidade de virem a estar desempregadas, a viver na pobreza ou a comportar-se de forma violenta contra os outros. Os autores do relatório destacam que os dados são provenientes unicamente de indivíduos que se disponibilizaram a responder, e que, por consequência, representam uma estimativa mínima do problema.
Entre as principais conclusões, destacam-se:
 Violência Sexual: Cerca de 120 milhões de raparigas com idade inferior a 20 anos em todo o mundo (cerca de 1 em cada 10) foram sujeitas a relações sexuais forçadas ou outro tipo de actos sexuais forçados, e 1 em cada 3 raparigas adolescentes dos 15 aos 19 anos casadas foram vítimas de violência emocional, física ou sexual por parte dos seus maridos ou parceiros. A prevalência da violência praticada por parceiros é de 70 por cento ou mais na República Democrática do Congo e na Guiné Equatorial, e próxima de ou superior a 50 por cento no Uganda, na República Unida da Tanzânia e no Zimbabwe. Na Suíça, um inquérito de 2009 a raparigas e rapazes com idades entre os 15 e os 17 anos revelou que 22 por cento e 8 por cento, respectivamente, tinham vivido pelo menos uma experiência ou incidente de violência sexual envolvendo contacto físico. A forma mais comum de violência sexual para ambos os sexos foi a vitimização no espaço virtual.
 Homicídio: Um quinto das vítimas de homicídio a nível global são crianças e adolescentes com menos de 20 anos, o que se traduz em cerca de 95.000 mortes em 2012. O homicídio é a principal causa de morte em indivíduos do sexo masculino dos 10 aos 19 anos no Panamá, na Venezuela, no Salvador, em Trinidad e Tobago, no Brasil, no Guatemala e na Colômbia. A Nigéria tem o maior número de homicídio infantil – 13.000. Entre os países da Europa Ocidental e da América do Norte, os Estados Unidos têm a taxa de homicídio mais alta.
 Bullying: Pouco mais de 1 em cada 3 estudantes com idades entre os 13 e os 15 anos em todo o mundo são regularmente vítimas de bullying na escola; na Samoa, a proporção é de quase 3 em cada 4. Quase 1/3 dos estudantes entre os 11 e os 15 anos na Europa e América do Norte relatam ter estado envolvidos em actos de bullying contra outros – na Letónia e na Roménia, perto de 6 em cada 10 admitem ter sido autores de bullying contra outros.
COMUNICADO DE IMPRENSA
 Disciplina violenta: Cerca de 17 por cento das crianças em 58 países são submetidas a formas de castigos físicos severos (bater na cabeça, nas orelhas ou na cara ou espancar a criança repetidamente). Mais de 40 por cento das crianças entre os 2 e os 14 anos de idade são submetidos a castigos corporais severos no Chade, Egipto e Iémen. Em todo o mundo, 3 em cada 10 adultos acreditam que o castigo físico é necessário para educar correctamente uma criança. Na Swazilândia, 82 por cento dos inquiridos afirma que os castigos físicos são necessários.
 Atitudes em relação à violência: Perto de metade de todas as raparigas adolescentes com idades entre os 15 e os 19 anos (cerca de 126 milhões) pensam que se justifica que um marido bata na mulher em determinadas circunstâncias. A proporção aumenta para 80 por cento ou mais no Afeganistão, na Guiné, na Jordânia, no Mali e em Timor-Leste. Em 28 dos 60 países com dados sobre ambos os sexos, são mais as raparigas do que rapazes que acreditam que bater na mulher é por vezes justificado. No Camboja, na Mongólia, no Paquistão, no Ruanda e no Senegal, as raparigas são duas vezes mais do que os rapazes a pensar que o marido, por vezes, tem o direito de bater. Dados de 30 países sugerem que 7 em cada 10 raparigas dos 15 aos 19 anos que foram vítimas de abuso físico e/ou sexual nunca procuraram ajuda: muitas afirmaram pensar que não se tratava de abuso ou não viam tal situação como um problema.
A UNICEF apresenta seis estratégias que poderão permitir à sociedade como um todo, desde as famílias aos governos, prevenir e reduzir a violência contra as crianças. Estas incluem, entre outras:
- Apoiar os pais e dotar as crianças de aptidões para a vida quotidiana;
- Mudar mentalidades;
- Reforçar os sistemas judiciários, penais e de serviços sociais;
- Recolher elementos de prova relativos à violência e aos custos humanos e socioeconómicos que acarreta, a fim de mudar mentalidades e normas sociais.
“A violência contra as crianças ocorre a cada dia que passa, em toda a parte. E, embora prejudique sobretudo as crianças, também afecta todo o tecido da sociedade – ameaçando a estabilidade e o progresso. Mas a violência contra as crianças não é inevitável. Podemos preveni-la se não deixarmos que permaneça na sombra,” afirmou Anthony Lake. “Os dados contidos neste relatório obrigam-nos a agir no interesse de cada uma destas crianças e pelo reforço da estabilidade futura das sociedades em todo mundo,” concluiu Anthony Lake.

A UNICEF lançou a iniciativa a 31 de Julho de 2013, apelando à acção colectiva para pôr fim à violência contra as crianças, sublinhando o facto de que a violência está em todo o lado, mas acontece frequentemente longe da vista de todos ou é tolerada devido a normas sociais e culturais. Sob o slogan “Tornar visível o invisível”, a iniciativa tem como objectivo chamar a atenção para o problema como um primeiro passo para mudar mentalidades, comportamentos e políticas. A iniciativa apoia também os esforços levados a cabo para recolher provas sobre o que funciona, e reitera o conceito de que a violência pode ser prevenida dando destaque aos esforços e movimentos de sucesso a todos os níveis da sociedade. Cerca de 70 países em todo o mundo acordaram formalmente juntar-se à #ENDViolence, comprometendo-se a intensificar esforços para identificar, localizar e reportar situações de violência contra crianças em todas as suas formas.
Para saber mais, visite: http://www.unicef.org/endviolence/

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