terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A Realidade deste Tempo

A Realidade deste Tempo

É consensual que temos assistido ao crescimento das desigualdades sociais, que o
desemprego tem aumentado e a perspectiva não é da sua diminuição, que a
criminalidade e a população prisional estão em crescendo, que o futuro da
maioria dos jovens é sombrio, que as situações de sofrimento das crianças são
aterradoras, que a segurança social está em retrocesso, que o egoísmo é cada
vez mais presente nos mais variados estratos populacionais, que a pobreza e a
exclusão social são uma chaga sem fim à vista, que as escolas têm visto crescer
a sua imagem de instituições com acréscimo de problemas, etc.,etc.,etc. .
E isto apesar de o Mundo ser possuidor dum conjunto de tratados, convenções,
protocolos e outros instrumentos que apontam no sentido de que tais situações
não se devem verificar. Instrumentos estes redigidos, aprovados e ratificados
pela esmagadora maioria dos Estados que integram as Nações Unidas, o Conselho da Europa, a União Europeia e outras instâncias internacionais.
Vejamos alguns dados estatísticos já que, infelizmente, os números impressionam mais que os princípios.
Já ultrapassam os 600.000 os portugueses que são apoiados pelas mais de 5.000
instituições de solidariedade social, as quais empregam cerca de 200.000 funcionários; Em Dezembro de 2010 atingiu-se o número de 300.000 jovens portugueses dos 15 aos 30 anos que não trabalham nem estudam; A Comissão de Protecção de Crianças e Jovens em Risco tinha 66.896 processos em seguimento no ano de 2009; O Ministério da Educação quantifica em 17.269 os processos disciplinares a alunos durante o ano lectivo 2009/2010; O Conselho Nacional de Educação mostra que num universo de 1,5 milhões de alunos 25% são muito carenciados e beneficiam de apoio social escolar; O número de processos nas instâncias judiciais e extrajudiciais em Portugal ultrapassa os dois milhões, sem contar com os muitos milhões de processos de execução fiscal, o que dá um quadro duma sociedade conflituosa e em guerra ao arrepio do que deveria ser uma sociedade de paz e concórdia; A população prisional em Portugal (cerca de 11.000 reclusos) e no mundo (cerca de 10 milhões de reclusos) está novamente em crescimento; A fome abrange mais de mil milhões de pessoas em todo o mundo; Só 27% dos moradores dos bairros sociais do Porto é que têm trabalho e uma grande parte já não tem electricidade em casa; 40% dos desempregados em Portugal inscritos nos centros de emprego não têm direito a qualquer subsídio (são mais de 250.000 pessoas);  35% da população portuguesa não tem aquecimento adequado em casa;  Os cinco maiores bancos portugueses tiveram em 2009 mais de dois mil milhões de euros de lucros; A Amnistia Internacional denuncia a cumplicidade de muitos governos na prática da tortura e de outras violações de direitos humanos;  O Bispo D. Carlos Azevedo declarou que se estão a tapar os pobres com a vitória dos ricos e que uma mudança profunda só será possível com uma revolução de mentalidades dos gestores e agentes políticos, perguntando quem nos liberta desta força que nos leva à morte e deste modelo de desenvolvimento que nos sequestro o futuro; A obsessão securitária e a repressão triunfam sobre a liberdade e a paz; etc…etc…etc… .
Poderia continuar por muitas páginas a mostrar o retrato negro do mundo em que
vivemos, que se traduz num escândalo, numa vergonha, numa desumanidade.
Perante este quadro seria de esperar que as instituições que pugnam pela
melhoria da convivência social, pelo triunfo da virtude sobre os vícios, se
empenhassem na correcção destes sinais e para isso fizessem mobilização dos
seus membros e da sua influência junto daqueles que têm por missão conduzir os
destinos dos povos. Mas parece que tal não se está a verificar. O que se
assiste é a um desfiar das situações atrás descritas, com retratos deprimentes
e fatalistas sem que se veja uma dinâmica que aponte novas direcções, além da
já rotineira dicotomia poder/oposição, em termos político-partidários, inconsequente como a realidade dos factos demonstra.
Temos de pugnar pela construção duma nova ordem política, económica, social e cultural.

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